Mentira

 

“Mas outra vez a ideia da «mentira» passou, regeladora. E afastou-se dela, (…) num desespero, revoltado contra aquela coisa pequenina e indestrutível que não queria sumir-se, e que se interpunha (…) entre ele e a sua felicidade divina.”


– Dizia Eça, nos pensamentos do Carlos da Maia… nos tempos em que a mentira importava.
Como entidade pérfida e insidiosa sim; corrosiva, comprometedora de projetos e amizades, mas que era identificável e fácil de isolar, digna do respeito que o medo lhe impunha e do resguardo que se deve a um inimigo.
Uma mentira contaminava uma conversa, arruinava promessas, desfigurava intenções, não era algo para fazer de conta que não acontecera, algo a que se respondesse com a mesma moeda e se passasse à frente. Entretanto, evoluiu para um estado de pureza e elevação tais, que conseguiu um estatuto semelhante ao de divindade: omnipresente e (quase) invisível. Parece normal, aceitá-la no nosso intelecto, como mais um recurso ou um expediente.

Instalou-se e pratica-se trivialmente como um jogo de palavras, em que ninguém ganha, nem se vicia, simplesmente proporciona fantasias de ilusão momentânea de poder, ou ascendência, nas historinhas do “eu sou”, e do “eu tenho”. Adormece a razão, funde-se no ego e assume a condução do texto e da coreografia, até se moldar ao ser, e finalmente o moldar a si.Mente-se sobre as mentiras, pela coerência e sentido necessários da própria mentira, do próprio ser falso.

Mente-se porque se chega tarde, porque não se chega, mente-se para agradar, ou para agredir, mente-se ao médico e mente-se aos filhos, desde pequeninos…, mente-se para parecer assim, ou para ser outro; mente-se sobre os gostos e sobre os hábitos, sobre o que temos e o que vimos para nos inventarmos; mente-se sobre quem somos, para iludir a mesquinhez, para embelezar as intenções maldosas com a cor das banalidades; para esconder nos sorrisos e nos abraços, o veneno da inveja e da hipocrisia. Mente-se porque é fácil e parece que já ninguém se importa.

Todos nós de um modo ou de outro, percebemos constantemente, parte das mentiras que nos dizem. Poucos, muito poucos de nós, são capazes de dizer isso na hora ao interlocutor. O mentiroso amador teme ser apanhado, tem a sensação que a sua voz fica esquisita, que tem escrito na testa que está a mentir, que toda a gente vai perceber. Mas se à sua frente tiver um mentiroso experiente que o faça crer que acredita no que está a contar, ele ganha confiança e vontade de repetir. É uma sensação de estranho poder e até mesmo de superioridade momentânea, que se transforma num sistema em evolução e aperfeiçoamento. E depois passa simplesmente a mentir. Habitua-se a conviver com o fantasma da desconfiança alheia e mesmo quando conta a verdade, mente sobre a verdade porque duvida da própria credibilidade e necessita de introduzir artefactos decorativos, tapar buracos de pormenores que não se lembra e que lhe parecem dar mau aspecto ao seu
relato, o aspecto espartano da verdade fácil e elementar.

A mentira tende a ser aceite, eventualmente lamentada, como uma doença contra a qual nada podemos fazer. Como defesa, começamos a duvidar sistematicamente e é então que deixa de nos incomodar. Nessa altura, mentir, tornar-se-á legítimo e fatalmente a  rendição à mentira, acabará por banir da tribo o alicerce de todas as relações, próximas ou distantes; perduráveis ou ocasionais; formais ou genuínas; de poder ou de respeito; de amor ou de veneração; de amizade ou de fraternidade: a confiança.

A verdade e a mentira como conceitos, deixam de fazer sentido, por se fundirem ou se anularem como opostos simétricos, teóricos, em que cada um só exista para ilustrar a existência do outro. Teoricamente. Talvez deixe de valer a pena falar verdade, porque não importe, porque a verdade eventual das palavras, não passe de ornamentação desnecessária e fútil de qualquer discurso, conversa ou compromisso.

A tribo não pune, nem age contra a mentira e por entre as mentiras que dizemos, vamos declarando orgulhosamente e com elevação, o nosso repúdio pela mentira, com o conforto da certeza que temos, que uma porta aberta pela mentira, vale tanto como outra aberta pela verdade e não se fecha por esse motivo.

A dúvida metódica deixará de ser um paradigma da filosofia cartesiana e integrará o nosso sistema de defesa contra as “intempéries” da convivência social. E conformar-nos-emos, eventualmente,
até a verdade deixar de ser necessária.


 

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This Post Has One Comment

  1. lenita falcão

    Não posso estar mais de acordo!!! Dizer a verdade nem sempre é fácil mas vale a pena!!!!!!!

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