Esboço sobre o triunfo da basófia

Esboço sobre o triunfo da basófia

A falência da opinião

“Não vale a pena dizer nada”, é uma expressão que eu combati convictamente até há alguns anos. “Há sempre algo que vale a pena dizer, mais, que deve ser dito, se estamos perante algo errado, falso ou injusto. Calar” – dizia eu com toda a força dos meus princípios – “é consentir, concordar”.

Deixei de pensar assim muito antes de o admitir e ponderei se por perda do vigor juvenil das causas, do fervor da argumentação ou mesmo de um fatal e entorpecedor conformismo.

Não, não foi.

Eu mudei sim e refinei o sentido da validade e da utilidade das lutas.
Percebi, para mim, que o valor do que se diz tem vindo a inflacionar, na mesma proporção em que tem vindo a deixar de ser realmente ouvido e também por isso, isto que aqui exponho, não tem qualquer pretensão a passar de um exercício íntimo de reflexão, que partilho sem qualquer presunção a catecismo. Desta forma, talvez a mais pacífica e eventualmente eficaz em que podem manifestar-se ideias próprias, não me imponho, antes exponho.

Acredito que há um magistério de influência pacífica e se necessário silenciosa, que deve ser exercido, para lá do ruído e da crispação que provocam a defesa das certezas e da razão que inundam quase todas as conversas.
Ao contrário, é preciso estar disposto a gritar, vociferar impropérios, ser polémico, controverso fazer declarações marcantes ou ser subversivo quanto baste, para despertar a atenção e provocar uma discussão.
Os cada vez mais raros fóruns de discussão serena e ponderada, são substituídos por guerrilhas verbais de defesa de princípios e conceitos, não raras vezes alheios e mesmo estranhos aos seus acólitos defensores.

Os seres humanos estão mais esclarecidos e discutem mais? Estão mais informados, com mais clareza e cultivam mais fortes convicções? Estão mais seguros da sinceridade dos políticos e dirigentes e por isso, mais firmes na defesa dos seus discursos?

O mundo parece-me, isso sim, saturado de informação misturada com credulidade; prosápia disfarçada de conhecimento, basófia exibida como sabedoria e anedotário popular como cultura.
Há informação encomendada e notícias fabricadas, em todas as sociedades, como até há pouco havia nos regimes totalitários, e um sem número de pessoas que acreditam “porque deu nas notícias”, a um nível confrangedor.
A quantidade e a diversidade da informação sempre disponível, vinda de todos os setores e com observações e revelações tão contraditórias entre si,  dá-nos legitimidade para comentar, criticar e defender as teorias de cada um, em volta das notícias mais díspares.
Talvez por isso, com alguma facilidade me vejo rodeado de especialistas em incêndios florestais, em acidentes de comboio, em geoestratégia e em cozinha kosher, tudo na mesma pessoa.

Não tenho argumentos para tal, e as opiniões já nada valem. Ter uma opinião sem ser capaz de a transformar num facto e dela apresentar prova, é uma fraqueza e não mais uma riqueza filosófica.

Todos têm ao seu alcance provas, estudos, demonstrações, relatórios, vídeos sobre o que defendem em relação a qualquer assunto e que providencialmente lhes dão razão.
Há para qualquer opinião, dezenas de especialistas que a partilham, que a demonstram, e transformam em facto. Mas o mesmo se passa com a opinião contrária, basta saber procurar.
A troca de opiniões, ou convicções, tem vindo a ser substituída por imperativos de provar certezas e embalados por uma convicção de que a informação que escolheram é a verdadeira, uma maioria, em vez de expor ideias, sentencia, faz declarações, ensina.
Sendo que as opiniões, não passam de ideias avulsas que podem ter maior ou menor validade, dependendo de muitos fatores, muitas vezes arbitrários e muitas vezes voláteis, não há opiniões erradas. Ainda assim, hoje, as opiniões rejeitam-se e combatem-se as pessoas que as defendem.

Muitas vezes não vale a pena dizer nada, até porque ninguém quer ouvir realmente. Criam-se barreiras de imunidade às opiniões contrárias.

Mas, manter silêncio perante uma afirmação, é uma atitude e pode ser uma opinião, dependendo de quem o presencia. Pode ser uma defesa contra uma discussão potencialmente caótica a evitar contribuir para o ruído ou para não dar palco aos profetas da verdade absoluta.
No entanto, numa altura em que todos criticamos tudo, espontaneamente e sem pausas, todos têm uma palavra a dizer acerca de tudo, não dizer nada causa estranheza, causa desconforto e mesmo desconfiança às mentes agitadas e militantes.

Muitas vezes não vale a pena dizer nada, até porque ninguém quer ouvir realmente.

A Humanidade está a ficar ébria de uma razão, descoberta, testemunhada e documentada pelos infinitos oráculos da web.
A História da evolução das formas de comunicar trouxe-nos até aqui.
Sabemos que a eficácia da comunicação, molda a estruturas das sociedades, porque muda a forma dos seres humanos se relacionarem. Os seres humanos, graças às novas formas de comunicação e conversação virtuais estão a comunicar mais, mas isso está longe de significar estão a comunicar melhor.

Quando em 190 aC Fidípedes correu 42 Km entre Maratona e Atenas para fazer chegar aos atenienses a mensagem de que os persas tinham sido derrotados e que os seus barcos se dirigiam para aquela cidade, esta foi a melhor forma encontrada para fazer chegar a mensagem.

Vinte séculos depois Graham Bell e Thomas Watson criaram o telefone, que permitiu que uma mensagem fosse transmitida, a qualquer distância e momentaneamente, a viva voz.

E bastaram pouco mais de cem anos para que, primeiro pela Internet e na sequência, com as redes sociais, se tornasse real a capacidade de, literalmente todos os seres humanos, poderem falar diretamente com todos os outros e fazer chegar uma mensagem em simultâneo a todos os outros.

É fantástico, é democrático é humanista, mas não há uma prevenção natural contra o ruído causado pelo uso desmedido e pela incontinência da exibição.
Abriu-se uma torneira que reservava um oceano sem fim.

Todo o tipo de informaçao, de opinião, cai em catadupa no nosso écran, e traz consigo um presente envenenado. Um espaço só nosso e feito para nós que, se quisermos, podemos usar para comentar. Tudo pode ser comentado qualquer que seja a origem, tudo pode, e por imperativos de participação, deve ser comentado. É quase um pedido.
E nós começamos a usá-lo quase por obrigação. O mundo todo passou a ter o direito de saber o que nós pensamos, e nós, que pensamos sempre qualquer coisa em relação a tudo, vemos reconhecido o direito de partilharmos a nossa opinião com o mundo.

É fantástico, é democrático é humanista. No entanto a torneira que sustinha um oceano sem fim, abriu para um terreno que não estava preparado para escoar tamanha enxurrada e está a formar-se um lamaçal.

Assaltou-nos o delírio de um novo poder: temos infindáveis vias abertas para manifestarmos e tornarmos público tudo o que pensamos, sempre e sem travões e caímos na ilusão de que conseguimos fazer-nos ouvir.
A maioria se calhar, ignora os efeitos da saturação e da redundância, porque as vozes que chegam ao Olimpo continuam a ser as mesmas de sempre.

Mas não é fácil atravessar um lodaçal sem sujar os pés e sorrateiramente este novo modo de estar, redesenhou a nossa forma de comunicarmos e com isso, a nossa forma de lidarmos uns com os outros. Descobrimos que há um mundo que pensa como cada um de nós, que nos dá razão. Porque adquirimos forma de podermos banir do nosso horizonte quem pensa de modo diferente e ficar com os grupos de opinião, os jornais, os comentadores com que nos identificamos e que dizem o que nós gostamos.
Quanto mais nos manifestarmos, mais probabilidades temos de que os sábios algoritmos façam chegar até nós os que gostam do que nós dizemos. Não precisamos então, de ler notícias que dão conta de realidades diferentes dos factos que já tínhamos adotado.

Por outro lado, podemos aprender tudo. Para quem não está para se chatear a ler, há vídeos que ensinam tudo. Há em cada canto especialistas em tudo e aparecem de geração espontânea nas mentes mais improváveis. Qualquer um é professor, treinador, instrutor, guru, o mundo hoje é um paraíso de sabedoria e de conhecimento.

No meio de todo o ruído, há os verdadeiros especialistas em cada matéria. No entanto, todos os seres humanos se enganam, mas também mentem e são pontualmente maldosos. Os especialistas, sejam médicos, mecânicos de aviões ou sacerdotes, não estão protegidos por um manto divino que os afasta destas fraquezas. Antes, são mais perigosos, porque têm mais audiência e são tomados como referência.
O maior disparate pode ser apresentado num invólucro nobre e demonstrado por sábias palavras que o tornam plausível e credível. Chama-se, conforme o enquadramento, sofística, oratória ou retórica, as artes de vender uma ideia e eram novidade no sec. V aC, não hoje.

Há pouco mais de cem anos, as mentes mais sábias da física podiam provar que o átomo era a parte indivisível da matéria, depois as mentes mais sábias da física descobriram que afinal o átomo tem núcleo e conheceu-se o protão, o eletrão e o neutrão e provou-se que nada havia de mais pequeno e a seguir, as mentes mais sábias da física descobriram o quark dentro dos neutrões. Depois as mentes mais sábias da física encontraram o Tau, o Muão…

É isto a certeza, o facto científico indiscutível e é com a certeza e com as opiniões apoiadas em certezas que higienizamos o nosso mundo, libertando-nos dos hereges, dos infiéis, dos traidores, dos dos vendidos.
Com a certeza da razão, os iluminados perdem a paciência para a ignorância.
Embebedam-se de saberem que tantos pensam como eles ignorando que os tantos, são os que eles selecionaram. Renunciam ao pensamento analítico e individual, perdem anticorpos, tornam-se intolerantes para quem pensa diferente e chegam a sentir-se ofendidos com o pensamento contrário.
O grupo pensa por eles, e fornece-lhes exemplos, vídeos, provas e citações adequadas, para suprir muitas vezes, uma deficiente capacidade expressão que sustente argumentos de plástico formados a partir de verdades duvidosas, e que disparam como factos para calar opiniões. É isto a fraqueza.

Multiplicam-se os donos da razão e os juízes do pensamento, e alimentados por uma viciante sede de julgamento espontâneo e imediato e a partir de critérios excêntricos, mais nascidos de modas do que de análise séria, isola-se a personagem do pensamento contrário e poluente e atribui-se-lhe uma etiqueta.

Porque é de esquerda ou de direita, é pró-russo ou pró-americano, cristão ou muçulmano, não gosta de árabes ou não gosta de judeus… porque é preciso catalogar, etiquetar para que o grupo identifique os seus renegados de estimação.

Em qualquer assunto fraturante e sensível, é perigoso emitir uma opinião. Hoje, ninguém que o faça, pode esperar que isso seja tomado apenas como uma opinião e as reações sejam tão só de acordo ou desacordo e de preferência com argumentos.

As pessoas com a sensibilidade oposta, vão sentir-se ofendidas e atacadas nos seus valores, desprezando o que motivará a opinião.
Abdica-se paulatinamente do mérito de conhecer o pensamento de quem pensa diferente. E rejeitando o contraditório, o exercício da retórica, da dialética, cada um vai assegurando o estatuto de formigas em carreiros, servos do Ministério da Verdade.(1)
Há para todos grupos de guardiões das verdades sagradas, voluntários vigilantes e altruístas, prontos a identificar os contrários, como uma espécie de aberração que não vale uma conversa, e por isso prontos a enxovalhar e a insultar.
Apenas os asséticos, os que não têm opinião nem deixam de ter estão a salvo. Então, para quê emitir opiniões? Para quê defender uma ideia sem espectativas desse discurso fazer algum efeito, que mais não fosse causar uma discussão inteligente e aberta? Para que serve uma discussão se não permitir que ambas as partes independentemente de manterem as suas ideias aprendam algo com as ideias opostas?

Demasiadas vezes me arrependo de discussões em que me vejo envolvido e que me fazem sentir como se tivesse caído numa armadilha de retórica, da qual nada de útil sairá.
Demasiadas vezes não vale a pena dizer nada, porque simplesmente iria acrescentar ruído e turbulência, ao que parte muitas vezes, de um vazio intelectual. Porque demasiadas vezes ninguém quer saber o que os outros pensam porque já tem a certeza formada e sobejamente corroborada pelos seus iguais e as opiniões alheias servem apenas como trampolim para mais retórica.

Porque os senhores da verdade e os censores da opinião, em face do que eu manifestar, concluirão, comprometidos com a própria cartilha, que eu penso assim porque sou de esquerda ou de direita, sou pró-russo ou pró-americano, sou cristão ou muçulmano, não gosto de árabes ou não gosto de judeus… e por um destes motivos, ou qualquer outro que se aplique ao caso, a minha opinião está inquinada e não é digna de ponderação.

Se muitas vezes decido não vale a pena dizer nada, é porque nessas vezes acredito que é a melhor forma de dizer algo. Mas calar sempre, desgasta.

Conforto-me com o que dizia Sólon, um dos sete sábios de Atenas:
“Se sabes, não discutas”.


(1) 1984, George Orwell


 

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