Correio Interno

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Desabafos, escárnio, desaforos e coisas...

... porque, como dizia Albert Uderzo

"Os imbecis, possuem a imensa virtude de acreditar sempre em tudo o que pensam, em tudo o que dizem e em tudo o que escrevem."

O Voto em Branco.

Votar “em branco” não é o mesmo que alienação, nem alheamento ou renúncia de direitos. Não é indiferença, nem desinteresse. É uma escolha, é ir ao local de voto com uma escolha feita: não votar.

 

O austríaco Paul Watzlawick, psicólogo, filólogo, e um dos mais notáveis teóricos da comunicação, afirmou que o comportamento não tem oposto, isto é, não há “não comportamento”, não há “não ação”, ou seja, não agir, é sempre uma atitude.
Os eleitores que votam em branco, o que fazem de facto é afirmar que não há escolha válida, que a escolha é, para si, uma ilusão e isto nunca significa “não quero saber”. Não sair de casa ou escolher fazer outra coisa em vez de ir à mesa de voto, é desprezar o ato eleitoral. Ir e colocar o seu boletim, preenchido ou não, é querer ser contado, é querer que a sua opção seja considerada.
Votar é um direito inalienável e como tal é sempre cumprido e ao contar-se os votos, contem-se os eleitores todos, descontem-se os votos nulos e brancos, e restam os votos válidos.

 

Há cidadãos que não votam em nenhuma das escolhas disponíveis porque escolhem essa forma de mostrar aos candidatos e aos concidadãos que não gostam das opções de que dispõem. Outros não votam porque não conseguem escolher. O voto eufemisticamente chamado “voto útil”, (mas na verdade voto negativo), em que se vota sem convicção num candidato, apenas para impedir outro de ganhar, ou ainda o ato de ir votar sem ter a certeza de se ter escolhido em plena consciência, são votos e valem tanto como qualquer outro, mas será ético votar assim? E cumpre a democracia?

 

Os profetas da desgraça e cultores do medo zurram a plenos pulmões que a democracia acabou ou está perto do fim, a maioria destes porque espera ansiosamente que assim seja.
O que acontece é que a prática da democracia já não é o que era. A democracia como a veem alguns puristas tem vindo a sofrer alterações e na verdade, aquela que hoje temos, é muito diferente da original ateniense de Clístenes. Essa, implementada em 507 a.C., excluía do direito de voto as mulheres, os escravos, os estrangeiros, os homens com menos de 20 anos de idade e os que não eram proprietários de terras, mas era fantástico quando comparado com o que até então havia. E isto foi mudando sem nunca termos deixado de lhe chamar democracia. O nosso regime é democrático? É sem dúvida, porque o direito de escolha é garantido a todos nas mesmas condições e democraticamente uns ganham e os outros perdem. Mas, a escolha é real? A quantidade de eleitos por cada confraria corresponde formalmente ao número de votos oferecidos a esses confrades? Não desde que a democracia deixou de ser direta e passou a ser representativa, porque o método de Hondt em rigor não faz corresponder o mesmo valor a todos os votos, mas isso seria para outro fórum e aqui não se trata de política.
Geralmente as agremiações de cidadãos que presunçosamente se consideram políticos, “lembram-se” que são democráticos quando falam de fora, e esquecem-se que o são quando agem de fora, dirigindo então o eixo de toda a sua luta para o derrube do grupo de amigos e familiares que entretanto foi eleito e formou governo. Porquê? Porque este género de cidadãos não acredita na verdade democrática das eleições desfavoráveis e têm a certeza que aqueles que foram eleitos, os outros, não o deveriam ter sido, então é imperioso retirar-lhes os direitos que a eleição lhes granjeou. E mais do que isso têm pressa, porque os camaradas ou companheiros ou irmãos mais novos, assim que puderem vão retirar-lhes o tapete, e nas próximas eleições será tarde para eles.

 

Os eleitos e os candidatos devem perceber que não houve mais de dois terços da população que não participou no ato eleitoral, houve sim dois terços da população que participou e demonstrou que está cansada, que não gosta das ações nem acredita nas palavras, nem dos eleitos nem dos candidatos da mudança. Dois terços dos eleitores colocaram a cruz numa opção que não está lá. Esses dois terços de eleitores “abstencionistas” participaram sim no ato eleitoral e exprimiram-se dizendo que não estão satisfeitos com o que têm, e que gostando menos de uns do que de outros, entre o que têm e as alternativas nada muda – e têm quarenta anos de razão.

 

E disseram-no claramente não se iludam. Disseram-no em uso um direito democrático, de um direito pleno de cidadania e da forma mais ordeira, pacífica e silenciosa que lhes foi possível, mas e disseram-no.

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