Correio Interno

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Desabafos, escárnio, desaforos e coisas...

... porque, como dizia Albert Uderzo

"Os imbecis, possuem a imensa virtude de acreditar sempre em tudo o que pensam, em tudo o que dizem e em tudo o que escrevem."

Dedico-vos!


“O grupo” frequentava “o Alcides”, no C.C. da Portela.
Não me lembro do nome do café, mas conhecíamo-lo pelo nome do dono e empregado. Eramos cerca de dez ou doze, mas poucas vezes lá estávamos todos, até porque não caberíamos. Íamos lá lanchar depois das aulas; íamos lá à noite (quando as noites eram mais simples) beber umas “bejecas”; passávamos por lá uns bons bocados nas tardes de fim-de-semana e na manhã de domingo, quando os nossos pais pensavam que estávamos na missa. O total da despesa diária, acabava por não ser desprezável e o Sr. Alcides confiava em nós, a ponto de se ausentar da loja e nos deixar sozinhos. E podia fazê-lo.
No entanto, numa manhã como outra qualquer, o Sr. Alcides contou uma bica a mais e insistiu que teríamos que pagar mais do que as nossas contas contavam. Eramos muitos e estávamos seguros do que afirmávamos e a coisa passou. Uns dias mais tarde, foi um pastel de nata. O Sr. Alcides e mais ninguém, viu que um de nós comeu um pastel de nata, que insistíamos em não pagar. Desta vez, motivado, quem sabe, por algo como “desta vez não me enganam” e nós, enfraquecidos talvez pela inutilidade da razão, pagamos o que não comemos. Um de nós sentiu-se ofendido, sentiu-se tratado como um vigarista, sentiu-se indignado e percebeu que não poderia continuar a conviver com aquela pessoa. O grupo por ele, também. E, nos vinte e qualquer coisa anos que se seguiram, nenhum dos do grupo, voltou a entrar naquela loja, ou a consumir de lá, o que quer que fosse. O grupo gostava de lá estar, mas nesse dia não sabia que estava a ser aprovado com distinção, num exame de rotina. Isto aconteceu, porque o Sr. Alcides simplesmente não era, nunca foi afinal, nosso amigo. Isto terminou assim, porque para o grupo, o mais importante a proteger, a defender, eramos nós e o mais importante a resguardar, a preservar, era o grupo e para o grupo não importava onde estávamos, nem quem mais estava, importava estarmos juntos. Mas há outra variável, a variável de risco: o Sr. Alcides não poderia imaginar que aquele grupo de adolescentes folgados, tomasse tal atitude, uma atitude tão só de honra, como o Sr. Alcides não conhecia.
O grupo teve que encontrar um novo poiso para as tertúlias e os Martinis dominicais e encontrou. Passou a partilhar um Chafariz e o grupo cresceu imensamente, porque havia tantos mais como nós… e o Sr. Alcides ganhou um pastel de nata.
O grupo, fazia barulho na rua, o grupo faltava sempre à missa e eventualmente às aulas, ouvia música pesada, alguns ocasionalmente bebiam demais, uns quantos fumaram uns charros, andávamos no autocarro todos (à vez) com o mesmo passe, mas fomos educados. Em casa!
Não causávamos mal a ninguém intencionalmente, não podíamos desrespeitar ninguém, mais velho nem mais novo, devíamos veneração e humildade aos mais velhos e sensatez e discernimento aos mais novos, gostávamos que gostassem de nós, uns e outros. Ser mau ou ter mau aspecto, era considerado lamentável e achávamos que o mundo podia ser como o nosso pequeno universo, tendencialmente bom e agradável, protegido e livre.
Não tenho ideia de qualquer um que sofra de remorsos em relação a isto, mas crescemos. Demos rumos variados às nossas vidas, mudamos de casa e deixamos o nosso mundo sossegadinho até um dia.
Crescemos, mas levamos connosco as elementares e despretensiosas regras do nosso pequeno mundo e a amizade. A amizade tinha tomado conta das nossas células. Não seria isto uma história do crescer, se eu não utilizasse o cliché que tínhamos vindo a perceber que o mundo não era tão bonito como pensávamos, nem podíamos fazer tanto contra isso, quanto desejávamos. Mas sempre tínhamos a amizade e ela ia-se tornando mais importante.
Tínhamos a honra e o respeito, o amor-próprio e os princípios… e a amizade. E de um dia para o outro, tínhamos filhos.
O grupo nunca ficou para trás, mas o tempo disponível e a dedicação sofreram ajustamentos. Pedíamos, às vezes ajuda às músicas, que nos levavam para lá. Mas não reparamos que os nossos filhos já faziam parte do grupo, já eram esperados. Antes de nascer. Foram deixando de ser bebés (alguns) e depois crianças, (conforme o apego).
E nós, fomo-los formando com as regras, aquelas com que nos demos bem e com a amizade, aquela que nos deixou ser. Foram crescendo e transformando-se aos nossos olhos, em pessoas maravilhosas. Insistiam em fazer-nos importantes quando nós pensamos que estávamos em curva descendente.
Todos nós tentamos perceber, como aprenderam tanto do que lhes demos, sem que por vezes o tenhamos ensinado. Se calhar a amizade como ambiente, é uma boa preceptora, se calhar o tempo dedicado é um bom guia, se calhar é verdade que se pode ser também amigo dos filhos… mesmo, desde pequenitos,… se calhar é isso.
Pouco temos a lamentar (talvez um cruzamento, ou uma ou outra estrada secundária pudessem ter sido evitados, mas nada demais) e nenhum, nem um de nós, tem nada melhor na vida, nada que faça sentir que valeu e vale a pena, o tudo e o nada, os tombos e as derrotas, do que ser mãe ou pai. Todos nós temos um orgulho imenso nos nossos filhos e nas suas pequenas imperfeições. Todos nós, eu sei, nos sentimos mais novos quando partilhamos bombons de vida, pastelinhos de tempo, com os nossos filhos e com os outros nossos filhos todos. Dividimos ombros e silêncios nostálgicos, quando nos quedamos a olhá-los. Quase todos andamos a tentar perceber, como é que os nossos filhos podem ser tão ajuizados, tão mais moderados e sensatos, do que os pais e as mães que têm; tão diferentes e tão iguais, mesmo ouvindo dos pais e das mães as mais bárbaras e cómicas histórias da sua ruidosa e psicadélica adolescência. Se calhar foi porque cresceram a respirar amizade, se calhar porque não precisaram que as tais regras pueris e até românticas lhes fossem ensinadas e muito menos impostas. Se calhar gostaram em segredo, em alguma altura, de ver alegria sincera (a cair para a lagrimita) de alguns amigos e amigas dos pais ao vê-los “tão bonitos”, “tão crescidos”. Algumas vezes estranharam tantos amigos “grandes”, tantas pessoas que eles não conheciam e que pareciam conhecê-los tão bem… E os pais e as mães de alguns dos mais velhos, percebem um dia que eles já bebem umas imperiais e fumam uns cigarritos e até ouvem música pesada. De vez em quando, e durante uns dias andam com um brilho nos olhitos, que nada tem a ver com “alteradores de consciência”. Eventualmente faltam a umas aulas e dizem umas mentiritas que nós fazemos de conta que acreditamos, ou outras que até pegam. Temos dificuldade em colocar-nos “de fora” a observá-los, mas quando conseguimos, comove-nos a exposição de uma imagem tão magicamente distorcida de nós próprios. Os olhares que os nossos outros filhos e filhas nos dedicam, com as suas cabecinhas a tentarem processar o que ouviram os pais e as mães contarem do grupo, podem mesmo deixar-nos por um momento sem palavras.
E continuamos entre nós, os cotas, a olhar embevecidos e a partilhar suspiros com motivos de meses (a primeira avó do grupo), aos de vinte anos e a engolir lágrimas embrulhadas em sorrisos, afogadas em silêncios, sufocadas por recordações, embaladas em nostalgia. E ficamos nós, que em alguma altura da nossa adolescência, (de duração variada, conforme o apego) achamos que tínhamos uma vida “da tanga”, que estávamos perdidos, sem rumo nem destino e uns mais do que outros tínhamos razão, ficamos nós a desejar secretamente que os nossos filhos não se vão embora, que tenham um grupo por perto – e que se vão embora tomar mundo e ser tão felizes quanto um coração possa aguentar – e que fiquem com o grupo dos pais – e que cortem de vez o cordão e vão para longe inventar a felicidade – e que fiquem porque nós não vamos saber viver sem eles – e que vão viver mais do que nós conseguimos e melhor do que nós tentamos, – mas fiquem, porque a verdade é que nós não vamos mesmo conseguir viver sem eles – e vão porque nós vamos conseguir calar isso e despedir-nos a sorrir e vão, não paguem a porra do pastel de nata, e vão. Vão ser felizes!

This Post Has 9 Comments

  1. Grande texto!
    Por momentos até me pareceu que estava a ler um conto acerca do meu Grupo ( grandes reuniões de amigos no café da sede do futbol Clube Bareirense – Barreiro) este não ´só o conto do teu Grupo é o conto de todos os Grupos e de todos os Amigos que fizémos, com quem partilhámos, alegrias, tristezas, expectativas, sonhos e muito mais.

    Grande abraço.

    José Nogueira

  2. Grande Rui… há quanto tempo!!!
    Há quanto tempo não velejamos, há quanto tempo ando para conhecer o teu espaço artístico… há quanto tempo não lia um conto tão personalizado e que tem tanto de nós próprios… parece até que tinha sido eu a escrevê-lo ???!!! Grande abraço e, certamente, ganhaste mais um seguidor.
    Luís Duque

  3. … gostei imenso, Rui.Obrigada pela partilha.
    Que nunca percamos o nosso lado bom e que saibamos transmiti-lo aos nossos filhos, a todos aqueles com quem convivemos, mesmo que sejam uns sacanas.
    Que o pastel de nata faça bom proveito ao Sr.Alcides e a outros que por aí polulam.
    Ah , que o acompanhe com a bica, se esta não lhe causar azia…
    Abraço,
    Luisa Marçal

  4. Conheci o grupo por fora. Algumas vezes sentei-me lá, no café do Sr. Alcides.
    Nunca fui lá pelo Sr. Alcides, muito menos pelo seu pastel de nata. Também nunca paguei nada, que me lembre. O meu amigo Rui não deixava. Por isso,não fiquei a dever nada ao Sr. Alcides… Também nada fiquei a haver. Eu ia lá pelo grupo… do Rui…
    Os filhos!? Fui pai antes do grupo. Os filhos do grupo? Quero-lhes tanto de bom quanto desejo para a minha filha. O vosso filho, Rui e Gisele, é família.
    Se todos eles inventarem e praticarem a felicidade como nós praticámos a amizade à distância, seremos todos muito felizes!
    Bem hajas Rui pelo teu bonito texto. Tinha saudades de ler coisas tuas…
    O Sr. Alcides? Que se lixe o Alcides mais o seu pastel de nata!…

  5. O dito café tinha por nome Roça Quitexe se não me falha a memória; e engraçado, passei uma ou duas situações semelhantes nesse local.
    Fantástica a partilha. Bem haja !

  6. Muito bonito e muito real na descrição dos valores e das emoções que partilhamos.

  7. agora já dá.
    Cota!!??, tá tudo caduco e sempre a acreditar que temos 20, e temos duas vezes vinte!

    Rui, táchelente o teu teisto!

  8. Bonito texto "cota". Não me apetecia um pastel de nata, mas uma imperial e um ovo cozido surripiado ao Eduardo… já ia! Fizeste-me fome de estar convosco e, porque não, comigo mesmo.
    abraço
    m

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