F.J.G.S.



um ano que eu não abria o correio interno.

O mundo está na mesma.

Um ano parece muito tempo e pareceu um ápice. Num ano que todos os dias se completa na data certa, em qualquer data, acontecem muitas coisas, mudam muitas coisas e fica tudo na mesma. O mundo não muda, mas a humanidade muda, cíclica e
ilusoriamente, os homens individualmente deixam-se manietar e mudam em grupo,
por conformismo, os grupos mudam como um todo para os indivíduos não terem o
incómodo de pensar. Na sociedade dos homens, que não é o mundo, o crime
compensa, a mentira é inimputável, os fortes subjugam os fracos, os poderosos
oprimem os indefesos, porque disso se faz o mundo – dos homens. Pessoas
vendem-se e compram-se, os ricos, os médicos, os ministros, os advogados e os
juízes não vão para a cadeia; a pedofilia civil é crime, a clerical é só pecado.
E houve tempos em que assim não tenha sido? Quando? 

Acredito que o ratio entre homens honrados e filhos da
puta tende a manter-se universalmente estável. E não são os homens honrados que reinam. 

Os políticos são corruptos, os
empresários são gananciosos, as autoridades são prepotentes, as igrejas são
sectárias e os jovens são provocadores! Já era assim há mil anos. “Os jovens não seguem os conselhos dos mais
velhos”
– se seguissem, como é que a humanidade evoluía? – “trocam a família pelos amigos”
quando é que pai, irmão, ou tio significou amigo? – São recorrentes, geração
após geração, desde os primeiros pensadores, queixas das novas gerações e as
saudades do antigamente. É assim o mundo, egoísta e indiferente e em si mesmo
apático e nós insignificantes, lamentamos as nossas dores e esperamos que valha
a pena, porque julgamos que mudamos o mundo, sabemos que podíamos ser melhores,
mas ninguém é e o mundo faz-nos mal. O mundo não são os homens, embora muitos
homens pensem que sim. A última mudança no mundo ocorreu há sessenta milhões de
anos e nós, ainda nem cá estavamos. O que nos importa a nós, mas não ao mundo, são
as mudanças nas nossas vidinhas e nas de quem está perto e mesmo essas,
importam-nos na medida em que se intrometem nas nossas, em qualquer escala. Como
somos limitados, chamamos o mundo a isso.
No
todo nada muda porque o equilíbrio universal, continua a jogar-se entre o caos
e a ordem e o equilíbrio universal é cruel e indiferente, alheio ao Homem que
julga ser ele a razão de ser do mundo, o filho de Deus criador do próprio mundo
e feito à sua imagem e semelhança…, mas (pausa) ou porque (reticências), o Homem
é o mais vil, o mais cruel, o mais desprovido de sentido de equilíbrio e de
justiça que habita o tal mundo. Desde que somos civilizados pelo menos, tentamos
matar o mundo, gesto a gesto, pacientemente e o mundo despraza-nos tanto, que
se deixa sucumbir, precisamente na parte que reclamamos dos despojos, aquela
parte da nossa insignificância que consideramos o nosso espólio e que é o
suspiro da nossa agonia. E perdemos tempo, muito tempo a venerar o totem da presunção vã; em cerimoniais de
auto adoração colectiva e partilha de virtudes postiças; em competições de
mérito de contrafação, porque pensamos que temos tempo. E eu acho que não.
Tempo tem o mundo e nós não contamos.
Trocamos
janelas por espelhos e substituímos a nossa humanidade por um perfil
electrónico, que responde pelas nossas intenções, (que afinal é o que
interessa) e nos engrandece com visitas públicas guiadas pelo carácter de
excelência que compomos. Pouco nos importa o que realmente somos, desde que não
se veja.
Acreditamos
intimamente que somos eternos, ou que morreremos apenas, quando o mundo já não
tiver graça. Eu acho que não mas também acho que este nosso mundo até pode ser fácil.
Basta não pensar muito; basta aceitar que viver e existir são a mesma
coisa; basta acreditar em Deus, num qualquer, que Ele toma conta de nós e que
os seus misteriosos desígnios justificam a fome e a guerra; os genocídios; os
terramotos e os Tsunamis; a morte e a dor das crianças e a vida rica, farta e
alegre dos traficantes, dos ditadores, dos grandes políticos e governantes e dos
decisores militares e fabricantes de armas. Basta aceitar que não há nada a
fazer, que não temos culpa nem responsabilidades, que os nossos males vêm dos
do trânsito, do patrão, dos vizinhos, do banco, dos filhos, do tempo, do
ensino, dos transportes, dos pais, da televisão, da porteira, das finanças, da
internet,… é o veredito da nossa cobardia íntima e fedorenta que permitimos nos
vicie a honra exproprie a decência e que aceitamos que nos governe.
Nós perdemos individualmente e à margem do mundo, quando perdemos um pedaço de nós,
que nem sabíamos que nos pertencia, um pedaço da estrutura que nos prende ao
chão, quando vagueamos. Quando percebemos que não mais vai existir aquele
sorriso que nos mostrava que somos importantes, bons, bonitos, que somos o
centro de qualquer coisa notável, que é importante existirmos assim mesmo, de alguém
dos que por entre a ignomínia e a banalidade, por entre a indiferença e a estupidez,
por entre a maldade e a presunção da generalidade dos exemplares da raça, nos
olha de frente e sabe quem somos. Alguém que sabe a nossa história e não quer
interpretá-la, que conhece os nossos erros e não espera uma desculpa. Mas se aceitarmos
que tudo o que nos deu, tudo o que connosco partilhou era volátil e deixarmos o
tempo levá-lo, para não voltarmos a sorrir com ele ao lembrarmo-nos; se não o
arrumarmos no nosso espírito defeituoso com os seus defeitos à espreita, até se
tornarem bons. Se não conseguirmos rir-nos dele, ou maldizê-lo quando nos fizer
falta e pela falta de sentido de oportunidade para nos abandonar; se
dispensarmos assim pedaços que nos modelam e nos descrevem, que serão o nosso
princípio, o nosso fim, do tempo todo (tão pouco) que temos, que já tivemos,
abandonamos ao desleixo do mundo cínico, patife-crónico, indiferente, cada vez
mais vivo, cada vez mais morto o sopro que somos, para nos confirmarmos
insignificantes perante a vida que afinal não tivemos.
O
mundo só muda aparentemente – a sua estrutura mantém-se imutável, indiferente e
autoimune. A humanidade só muda aparentemente – o seu corpus é auto regenerativo e não tem memória. Um ser humano muda às
vezes no mais íntimo do seu ser, naquilo que menos se vê, que menos importa,
porque não se pode medir nem comparar. Muda quase sempre sem querer e, ou se aperfeiçoa
ou se degrada. A perda de um amigo para sempre, é um bocadinho da nossa morte; um
sopro de esquecimento do nosso motivo, da nossa desculpa, do nosso significado.
Mas é também das poucas ocasiões em que um ser humano pode escolher em que
sentido muda. E o mundo, nada pode fazer quanto a isso.
Obrigado
J.





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