Os velhos não são trapos!



A caricatura como forma de representação, apareceu em Itália no sec. XVI e era usada como meio de, através do exagero de traços característicos, representar alguém de forma satírica e quase sempre pouco abonatória. Grandes pintores como Monet e Picasso em alguma altura criaram caricaturas e sempre com o mesmo propósito: achincalhar o modelo.

O “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea” da Academia de Ciências de Lisboa (2001), define caricatura da seguinte forma: ” Desenho, pintura ou outro meio de expressão que, através do traço, da escolha de detalhes, acentua ou revela certos aspectos mais desagradáveis ou ridículos de uma pessoa, objecto ou situação…, visando sobretudo efeitos satíricos ou cómicos(…)”

Os responsáveis pela sinalética do parque de estacionamento do Centro Comercial Vasco da Gama, entendem que, nas zonas com lugares reservados a cidadãos com necessidades especiais, os idosos devem ser representados (salve melhor opinião), de forma caricatural. Esta:

      

O que me incomoda. Bastante.

Há sinais, há muito estudados, concebidos e elaborados por especialistas nas áreas do design gráfico e da semiótica, aceites e utilizados em todo o mundo civilizado, que de uma foram inequívoca e clara, dizem a um tempo, tudo e apenas o que é necessário. Dois exemplos vulgares:




Mas há também outras pranchas e estiradores, outros palcos e outras praças, fadadas para o humor e para o escárnio. Há um mundo de temas, sujeitos e situações, reais e diárias que se oferecem facilmente ao gozo e à chacota e há um manancial de oportunidades para os engraçados incontinentes e o seu génio galhofeiro e parolo.

Os cidadãos idosos, não fazem parte, nem tocam vagamente em ponto algum, estes universos.

A imagem em questão, tem o melhor da caricatura como instrumento ridicularizante e grotesco e o pior da representação simbólica, que se deseja simples, paradigmática e eficaz. Os idosos (gosto de: velhotes) constituem um grupo social que, em muitos casos, os seus elementos  são cidadãos com mais fragilidades e debilidades, do que a maioria dos outros e no entanto, também  na maior parte dos casos, são mais nobres, mais briosos, mais respeitáveis e mais honoráveis do que qualquer um de nós.
Representá-los como figuras ridículas, desproporcionados e desmedidamente cabeçudos, raquíticos, em que os seus membros, pouco mais estrutura têm, do que a bengala que os suporta encurvados, (o que se entende) devido à provável desproporção do peso da cabeça, não fica bem.
Mas não fica bem, a quem criou esta imagem, a quem a aprovou, nem a quem a expõe.

Apenas a estes.


     

2 Comments

  1. Deliciosa observação. Em poucas palavras resumes o sentimento que os palhaços que acreditam que sabem o que estão a fazer quando aprovam estas inerguminices sinaléticas, nutrem pelos idosos e assim os caricaturam: enfermos e desporporcionados, sabe-se lá relativamente a quê.
    Rui, keep on walking!

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